Fatidiviz

14.08.2014

Que espécie de palavra é esperança
É da cor da cinza
Sabe a feno antigo depois da chuva
Opaca ao tacto como o muro alto e branco
Cheira a traineiras
À corda húmida depois da pesca
O ritmo oscila na clave
O acento entre sílabas que conspiram átonas

Não vejo esperança na sintaxe
Uma apenas interjeição
e e a a
s, p, r, ç, corroem a esperança
Deixam-na sem fundamento ou raiz

O s mata a esperança
A acção chegou ao fim sem nunca ter começado
Silêncio regresso sussurro sossobrar
O p impede-a de subir e sonhar
Prende-a à porta e à pedra pauper et paucrum
Mas o r lembra-lhe os curros com seus r de reprimir
Manda-a descer pelo filtro
Que lhe desfibra os raios e retesa os arames

O n desliga o nó descobre-lhe a nudez
Corta-a pelo núcleo
Mostra-a caída na neve negada
Nada ninguém nunca noite
Mas é o ç que amarra a nau ao fundo
Nem vermelho nem negro nem c nem q
A palavra dobrando-se doce verga sorrindo
Açucarada com açucenas e açafates

Esperança deve escrever-se com f
Que dá origem ao fogo à fonte à força
Faz-lhe falta o t metálico e vibrado
Com a seiva e a consistência de
Talo timbre
Torno tuba e tronco
O d aumenta-lhe a razão
Demonstra deduz debate e duvida

Esperança só é eficaz com v
Onde reside a força e sopra o elemento
Onde a voz venta e vai veloz
Mas para que se erga no ar e voe
O z introduz-lhe o zip
Dá-lhe a fluidez do mercúrio
E a forma compacta da rosa
Duas vogais apenas para a esperança restaurada: a, i

Em Fatidiviz ainda ecoa um r
Mas este agora é lógico
É o r de estrutura grupo e parte
Que liga para construir
Que regressa para libertar
E assim Fatidiviz é o que vence o Fado qualquer
Grego ou latino opondo-se ao fatídico
É o que tem o Fiat

M. S. LOURENÇO, Arte Combinatória

As Qualidades da Utopia

02.08.2014

Uma utopia é mais ou menos o equivalente de uma possibilidade; o facto de uma possibilidade não ser uma realidade significa apenas que as circunstâncias com as quais a primeira está articulada num determinado momento a impedem de ser a segunda, porque de outra forma ela mais não seria do que uma impossibilidade. Se essa possibilidade for liberta das suas dependências e puder desenvolver-se, nasce a utopia. É um processo semelhante àquele que se verifica quando um investigador observa a transformação de um elemento num composto para daí tirar as suas conclusões. A utopia é a experiência na qual se observam a possibilidade de transformação de um elemento e os efeitos que ela provocaria naquele fenómeno composto a que chamamos vida.

ROBERT MUSIL, O Homem Sem Qualidades

A Vanguarda Está em Ti

17.07.2014

Conversations 2

10.07.2014


The second issue of Conversations: The Journal of Cavellian Studies has been published today. This special issue springs from a conference held at The University of Sydney, organised by guest editor David Macarthur. The contents may be downloaded here or, alternatively, here:

“Themes from Cavell: Editorial Comment”, David Macarthur

“Cavell on Skepticism and the Importance of Not-Knowing”, David Macarthur (The University of Sydney)

“Moral Perfectionism and Cavell’s Romantic Turn”, Nikolas Kompridis (Australian Catholic University)

“The Sense of Community in Cavell’s Conception of Aesthetic and Moral Judgment”, Jennifer A. McMahon (The University of Adelaide)

“Cavell and Rawls on the Conversation of Justice: Moral versus Political Perfectionism”, Paul Patton (University of New South Wales)

“Cavellian Meditations”, Robert Sinnerbrink (Macquarie University)

______________________

Conversations: 1

Liberdade

07.07.2014

O Que é a Arte?

11.06.2014

A Arte como Trabalho ou O Trabalho como Arte

08.05.2014


Começa hoje o muito oportuno e relevante segundo Congresso Internacional Marx em Maio, em Lisboa, organizado pelo Grupo de Estudos Marxistas. A página do congresso contém, para além do programa que incluo em cima, vídeos, resumos das intervenções, e notas biográficas dos participantes.

Apresentarei amanhã no congresso uma comunicação com o título “A Arte como Trabalho ou O Trabalho como Arte”, integrada num painel sobre estética e marxismo, e que resumi assim:

Em 1924, o cineasta soviético Dziga Vertov respondia à revista Kino defendendo a destruição do conceito de arte que “protege uma casta inteira de pessoas privilegiadas”, que se vêem como “milagreiros”. No ano da morte de Lénine, Vertov combatia assim uma perspectiva que considerava ser contra-revolucionária e idealista, afirmando “que não há fronteira entre o trabalho artístico e não-artístico”. Esta investigação desenvolve estas sugestões, a partir da análise crítica, materialista e dialéctica, de Karl Marx (e Friedrich Engels) ao trabalho. O capitalismo reduz o trabalho a uma actividade instrumental e forçada, um meio de alienação. A transformação histórica e prática das relações de produção num processo de emancipação humana, tornam o trabalho numa forma de realização e desenvolvimento integral, criador e criativo.

Conversations 2 CFP: Cavell and History

09.04.2014

Whatever one makes of Cavell’s writings, one can hardly say they are historical. We are told, for example, America’s military entanglement weighs in on his thoughts in Disowning Knowledge, but what exactly has King Lear to do with Vietnam? Does the essay require, or deserve, proper historicizing? Would such an exercise be to the benefit of Cavellian study, or to its detriment?

Moreover, Cavell himself explicitly, if still somewhat coyly, historicizes his skeptical argument in the introduction to his collection of essays on Shakespeare. Coy, because Cavell is hardly interested in employing a “professional” historical methodology. When he discusses the “advent of skepticism,” as, historically speaking, marking the appearance of Shakespeare, Descartes, and the New Science, he notes also that, fictionally speaking, the Roman world of Shakespeare, as depicted in Antony and Cleopatra, is “haunted by the event of Christianity.” Do competing threads of Romanization, Christianization, the advent of skepticism, the New Science, and, say, Renaissance theatre require sorting out?

Lastly, in discussing the appearance of what he coins the seven comedies of remarriage in Pursuits of Happiness, he expressly denies a cause-and-effect relationship leading to the appearance of this new genre:

My thought is that the genre emerges full-blown, in a particular instance first (or a set of them if they are simultaneous), and then works out its internal consequences in further instances. So that, as I would like to put it, it has no history, only a birth and a logic (or a biology). (27-28)

Once again, we accept submissions from all theoretical perspectives and disciplines and encourage attempts to assimilate seemingly disparate disciplinary areas of Cavell’s thinking. For the second issue of Conversations: The Journal of Cavellian Studies, the editors welcome papers that engage with Cavell’s different, perhaps undecided or indecisive, views on history and historicization. Possible paper topics include:

• historicizing Cavell
• the use of Cavell in broader philosophical discourse
• philosophizing history
• historicizing philosophy
• the authority of history versus the authority of self
• the influence of Marx on Cavell’s thought
• the influence of Heidegger on Cavell’s thought
• the influence of Hegel on Cavell’s thought.

Papers should be no more than 6000 words, including footnotes, and must follow the notes and bibliography citation system described in The Chicago Manual of Style. We also welcome shorter, more intimate pieces addressing specific questions (800-1200 words). Complete articles should be sent to Sérgio Dias Branco (University of Coimbra) and Amir Khan (University of Ottawa) no later than 31 July 2014.

A História de Arte como Ciência Excêntrica

23.03.2014

A Revolução Tem de Estar Perto (Parte 1)

12.03.2014